Textos

Estudiosa dos pólens


05/07/07

Maria Léa Salgado-Labouriau, professora da UnB, especializou-se
em palinologia e tem publicações de referência mundial

Estudiosa dos pólens

CECÍLIA MALHEIROS
Estagiária da Assessoria de Comunicação

Em plena ditadura militar, a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Maria Lea Salgado-Labouriau, especialista em Palinologia (ciência que estuda e data os pólens e a evolução da vegetação), foi obrigada a fugir da repressão. Casada com o também professor Luiz Gouveia e mãe de quatro filhos, ela se viu em situação difícil que exigia uma definição imediata. Em 1973, as coisas se complicaram na UnB. A situação do laboratório era tão ruim que a limpeza era feita pela faxineira de casa, porque o serviço de limpeza da UnB tinha ordens de não limpar o módulo onde a professora trabalhava. As ofertas de emprego em outras universidades brasileiras desapareciam assim que iriam ser efetuadas. Ao fim de várias tentativas frustradas, um amigo do casal avisou que o Serviço Nacional de Investigação (SNI) vetava a contratação.

A solução foi sair do país. Havia uma proposta de emprego para ela na Holanda e outra para o marido na Venezuela. Mas, em nenhum lugar, havia dois empregos. Ganhou o país latino-americano. Maria Lea ficou, temporiamente, desempregada. Depois de algum tempo, o Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas (IVIC) contratou-a como técnica de laboratório. Em 1979, ela recebeu uma bolsa da Fundação John Simon Guggenheim - grande surpresa para quem achava que ela era uma técnica.
Roberto Fleury/UnB Agência
Por conta da ditadura brasileira, Maria Lea exilou-se 15 anos na Venezuela.

Em 1988, começou um movimento na UnB para trazer os dois de volta. A situação política no Brasil melhorava e, na Venezuela, piorava. De volta a Brasília, a professora retomou os trabalhos de paleoclima do Brasil central, finalmente, usando os dados dos primeiros anos de pesquisa, que foram transformados em livros e outros estão em fase de elaboração.

Ao completar 35 anos de dedicação à UnB, em 1993, Maria Lea se aposentou. Mas ela não consegue viver longe da vida acadêmica. Há 12 anos, atua como pesquisadora associada sênior, função que dá direito a professores aposentados a continuarem suas pesquisas, terem uma sala com computador e darem aulas eventualmente, mesmo sem receber por isso.

PONTUAL - Todos os dias, às 9h, a pesquisadora chega ao Laboratório de Micropaleontologia no Instituto de Geologia para escrever o livro que trata do quaternário, os dois últimos milhões de anos da Terra – que possui aproximadamente 4,6 bilhões de anos – e deve publicá-lo ainda em 2005.

O coordenador do curso de graduação em Geologia e chefe do laboratório onde ela trabalha, Demerval Aparecido, diz que Maria Lea tem gênio forte, mas que é extremamente prazeroso trabalhar com ela. "Ela é brigona, mas, sempre muito justa, competente e honesta em tudo que faz", relata. Em casa, ela é mais tranqüila, segundo a empregada Rozeneide Gomes, que trabalha há 14 anos com a professora: "Ela é uma pessoa muito boa e fácil de lidar". Roze, como é chamada, dorme noite sim, noite não na casa de Maria Lea para fazer companhia, além de ficar todos os dias de segunda a sexta-feira.

Segundo Aparecido, mesmo sem obrigação de cumprir horário, Maria Lea é pontual e, quando não vem, liga para avisar e explicar o motivo, além de prometer que vai repor trabalhando outro dia. Com os colegas, mantém uma relação de carinho e amizade. Os alunos de outros países mantêm contato ainda hoje, depois de se tornarem profissionais bem sucedidos. Eles trocam cartas e e-mail com a professora que virou uma amiga.

No tempo livre, ela ouve música, vai ao cinema e passa alguns finais de semana em casa de amigos. Além disso, é uma leitora compulsiva: "Todos os dias, não consigo dormir sem ler, mesmo estando exausta". Línguas não são obstáculos, pois Maria Lea fala e lê, além do português, espanhol, francês e inglês. Outro grande prazer da pesquisadora era fumar. Hábito adquirido aos 14 anos, quando o cigarro era considerado um charme, ela foi obrigada a largar o vício no ano passado quando ficou internada durante 10 dias devido a uma pneumonia. "O médico já vinha recomendando há muito tempo, mas eu não ouvia", confessa.
Roberto Fleury/UnB Agência
A professora se aposentou há 12 anos, mas continua se dedicando à Palinologia

FUTURO - Seus planos são de continuar em Brasília e atuar na universidade enquanto puder. "Vou trabalhar até onde eu agüentar. A UnB me acolheu tão bem que escolhi ficar aqui, reencontrar os velhos amigos também ajudou muito". Para ela, Brasília é uma ótima cidade para morar. "Muito verde, muito espaço, e a violência ainda não é tanta", diz.

Nascida no Rio de Janeiro, Maria Lea mudou ainda pequena para a cidade de Passagem de Mariana (MG), entre as cidades de Ouro Preto e Mariana, porque seu pai era engenheiro civil e foi para lá trabalhar com mineração. No lugarejo, ela começou a se interessar por paleontologia. Entrou para a Escola de Minas de Ouro Preto, onde teve um excelente professor de paleontologia que a inspirou. Infelizmente, não pôde terminar o curso porque só havia homens e eles a discriminavam com insultos e agressões verbais.

Foi quando surgiu o curso de História Natural na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá, em um evento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ela conheceu seu marido, o então estudante de mestrado em fisiologia vegetal Luiz Gouveia Labouriau. Eles se casaram antes mesmo de ela concluir a graduação e foram para os Estados Unidos onde moraram de 1952 a 1958 e tiveram duas filhas. De volta ao Brasil, em 1958, formou-se em Ciências Naturais pela UFMG e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ela e o marido trabalhavam no Jardim Botânico.

Foi lá que começou a trabalhar com morfologia de pólens, segundo ela, ideal para quem tem filho pequeno porque pode ser interrompido. Depois, eles trabalharam no Instituto de Botânica da Universidade de São Paulo (USP), onde ela fez mestrado e deu início ao doutorado. Em 1970, vieram para Brasília dar aulas no Departamento de Biologia Vegetal da UnB. Dois anos depois, ela defendeu o doutorado pela USP que foi publicado pela Academia Brasileira de Ciências como livro Contribuição à Palinologia dos Cerrados, que se tornou referência mundial no assunto.

"O livro era de distribuição gratuita. Mas algumas pessoas pegaram a obra e venderam no Congresso de Botânica e por meio da internet. Então, contratou uma pessoa para digitalizar e disponibilizou o livro no site do Instituto de Geologia da UnB", conta Aparecido.
DE VOLTA AO BRASIL

Roberto Fleury/UnB Agência
Presente e organizada, Maria Lea dividia o tempo entre pesquisa e família

Em 1973, o casal Labouriau foi perseguido politicamente dentro da UnB e obrigado a sair do país. Luiz Gouveia e Maria Lea exilaram-se na Venezuela. Depois de 15 anos, voltaram ao Brasil na década de 1980 por incentivo do então ministro da Ciência e Tecnologia Renato Archer e do ex-reitor da UnB Cristovam Buarque. "Quando meus pais voltaram da Venezuela, foi preciso um decreto especial assinado pelo presidente da República para que eles fossem recontratados pela universidade", relembra a filha Isabel, 50 anos, que falou com o UnB Notícias pelo e-mail, já que mora em Portugal, onde dá aulas de matemática em universidades.

Em 1996, Maria Lea ficou viúva. Dois dos quatro filhos - a artista plástica Sônia, 48 anos, o analista de sistema Miguel, 40, moram em Belo Horizonte. No exterior, estão Isabel e o estatístico Rodrigo, 45, encontra-se na Dinamarca.

"A brincadeira da família é que Mariléa (como é chamada pelos parentes) fica com síndrome de abstinência se não falar com os quatro filhos no domingo. Mesmo que tenhamos falado no sábado por alguma razão. A gente brinca que, quando um de nós está na casa dela, vai ao orelhão para telefonar para que ela não estranhe" brinca Isabel.

Os três netos, filhos de Rodrigo, moram na Dinamarca. A mais velha Luísa, 15 anos, de vez em quando, dá um recital de violino para a avó, por telefone. Quando os filhos eram pequenos, Maria Lea conciliava atenção e carinho na sua vida profissional e pessoal. "Ela sempre foi muito presente de uma forma organizada. Quando eu era criança, tinha a sensação de que recebíamos muito mais atenção do que as crianças que tinham mães donas-de-casa. Todas as noites, antes de dormir, tínhamos história, um capítulo de livro que era lido como novela. As bruxas tinham nome de samambaia Osmunda, Onoclia e Salvinia. Ela via todos os dias o nosso dever de casa", relembra Isabel.

Fonte:

Textos: UnB Agência.
Fotos: Roberto Fleury/UnB Agência

http://www.unb.br/acs/personal/ps0505-01.htm

Autor(a): UnB Agência

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